segunda-feira, 7 de março de 2011

Construção II


Começa no alto.
Com o cinza.
Algumas manchas brancas.
Outras azuis.

Mais ao centro
as manchas são retangulares
e multicoloridas
que de tão desbotadas
também são cinzas.

Mais de perto, as manchas têm pontinhos.
Na verdade buracos.
Também quadrados,
também vazios.
Mas tem alguém lá!

Mais pra baixo,
aí já é preto.
Negro de petróleo.
Com retângulos brancos que ninguém entende
o motivo de estarem ali,
sem ninguém.

Construção


A Vinicius de Moraes.

Com tijolos de carne viva
ergui sua arquitetura.
E de janelas surdas,
o som de sua ternura.

Tua pintura,
com pinéis de meu couro
acorridas de mau agouro.

As portas fiz das folhas que escrevi
em tua memória
e nas quais me ofereci.

Fiz sua entrada,
sua saída,
tua não-morada.

Fiz também o teu chão,
teu fundo, teu quintal,
tua iluminação.

E com os pés que te chutei,
reassentei a terra
dos mortos que amei.

E os talhos que lhe fiz,
as formas para quê.