segunda-feira, 7 de março de 2011

Construção II


Começa no alto.
Com o cinza.
Algumas manchas brancas.
Outras azuis.

Mais ao centro
as manchas são retangulares
e multicoloridas
que de tão desbotadas
também são cinzas.

Mais de perto, as manchas têm pontinhos.
Na verdade buracos.
Também quadrados,
também vazios.
Mas tem alguém lá!

Mais pra baixo,
aí já é preto.
Negro de petróleo.
Com retângulos brancos que ninguém entende
o motivo de estarem ali,
sem ninguém.

Construção


A Vinicius de Moraes.

Com tijolos de carne viva
ergui sua arquitetura.
E de janelas surdas,
o som de sua ternura.

Tua pintura,
com pinéis de meu couro
acorridas de mau agouro.

As portas fiz das folhas que escrevi
em tua memória
e nas quais me ofereci.

Fiz sua entrada,
sua saída,
tua não-morada.

Fiz também o teu chão,
teu fundo, teu quintal,
tua iluminação.

E com os pés que te chutei,
reassentei a terra
dos mortos que amei.

E os talhos que lhe fiz,
as formas para quê.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desapego

Não debocha de mim assim
Não faz assim assim
Não me mata assim
Que sou te amante.

Repete assim comigo
Me chama de novo amigo
Já que não posso ser namorado.

Debocha de mim assim
Faz assim assim
Me mata assim assim
Que sou teu errante
Teu cego dançante
Teu mau, sofredor.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Maldições a Mahler

A Charles Bukowski,  que mesmo morto, provavelmente salvou minha vida.

Cidade cinza
Verdades galhos foscos
Curvados de seu peso,
na direção onde meus olhos apontam.
bad paulistana.

As sinfonias dos céus
agradeço a vida que é.
E não poderia deixar de ser.
Já que não há porquês.

Revoltado repousa
de headphones acústicos
em sua cama de suor
para que não seja seu leito
e que siga reto,
sem soar nas curvas.



[incompleto]

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os Senhores II

Para o desgraçado que inventou os sonetos.

Aqui nada muda.
Os vasos são os mesmos
E as flores secam.
Para comprarmos outras, novas, vivas.

Aqui tudo irrita.
Tudo se quer saber,
Nada se sabe.

Aqui não tem portas.
Tudo é extraído,
explorado,
morto.

Saudosa solidão,
de MEUS porres
e MINHA vida.



Os Senhores : http://andreyarnauty.wordpress.com/2010/09/02/os-senhores/

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fim


Para Jorge Amado, que nunca conheci nem admirei.

Mas que vontade de pegar a passagem
Ter como pagar
Embarcar no das 16h
E ver os campos
De cana-de-açúcar
Sem fim.
Passageiro.

Rodoviária é sempre deprimente.
O fim de tarde.
Estradas de São Paulo.

Que mais doce visão
Que poente
Arrombando a retina
Sem a sombra das velas dos barcos
Sem o som das ondas
Sem as calçadas
Sem graça.

Tapetes verdes,
Que horror.
Faz desta paisagem
O mais amargo quadro
A mais seca brisa
A mais forte economia.

Estrada sem fim, maldição.
Os mesmos campos,
As mesmas cidades,
Repetição.

Caixa de Entrada

Para minha mãe, que enche a minha.

Urgente é o título daquela envolta em
Exclamações; Delirantes paisagens naturais
Rompidas pelas imagens sacras
De tua cultura megalomaníaca.

Ah, a riqueza.
Faz de teu sucesso próspero
As mais lindas frases feitas
Preciosos megabytes de sabedoria
E admiração;

Sinta minha sede e meu
Desejo; por estas loucas apresentações
De tua moral
tanta motivação
E amor pela vida.

Agora, chama de teus os mais distantes
Endereços; e compartilha tua perspicácia.
Em quatro dias não se lembrará
Mas desejo piamente que pare
De encher a minha caixa de entrada.